O ex-policial militar Ronnie Lessa, condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, revelou detalhes de sua atuação no crime organizado em novo depoimento prestado ao Ministério Público. Lessa admitiu ter se associado ao bicheiro Rogério de Andrade para a exploração de bingos clandestinos no Rio de Janeiro e relatou um esquema sistemático de pagamento de propina a delegados da Polícia Civil para garantir o funcionamento das casas de apostas.
De acordo com o depoimento realizado no dia 26 de janeiro, Lessa procurou Rogério de Andrade, apontado como o "dono" da área, antes de abrir um bingo na Barra da Tijuca. O bicheiro, que é sobrinho do lendário Castor de Andrade, comanda o jogo do bicho em diversos bairros das zonas Oeste, Sudoeste e Norte da capital fluminense. Com a autorização do contraventor, o ex-PM deu início às negociações para garantir a "proteção" policial do negócio ilegal.
A conexão com a Polícia Civil
Ronnie Lessa descreveu como articulou os valores de propina com membros da cúpula da segurança pública. Em sua declaração, ele mencionou o delegado Marcos Cipriano como o intermediário responsável por fazer a ponte com Adriana Belém, que na época era a titular da Delegacia da Barra da Tijuca.
Os dois delegados citados por Lessa foram presos em 2022 durante uma operação do Ministério Público que desmantelou uma rede de jogos ilegais no Rio de Janeiro. Na ocasião, a polícia encontrou quase R$ 2 milhões em espécie na casa de Adriana Belém. Atualmente, ambos respondem ao processo por corrupção em liberdade. Lessa afirmou que o objetivo dos pagamentos era evitar fiscalizações e assegurar a operação das máquinas de apostas sem interferência estatal.
Histórico de crimes e disputas no bicho
A trajetória de Lessa no jogo clandestino se cruzou com o planejamento da execução de Marielle Franco. No dia da inauguração de um de seus bingos, uma operação policial interditou o local e apreendeu 78 máquinas. Lessa, que estava presente no estabelecimento, conseguiu fugir e, posteriormente, recuperou o material. Naquele período, o ex-PM já estava envolvido nos preparativos para o atentado contra a vereadora e o motorista Anderson Gomes.
A figura de Rogério de Andrade também carrega um histórico de violência. Ele travou uma disputa sangrenta pelo controle dos pontos de bicho com Fernando Iggnácio, genro de Castor de Andrade. Rogério está preso desde 2024, acusado de ser o mandante do assassinato de Iggnácio, ocorrido em 2020. As novas revelações de Lessa reforçam o elo entre os grupos de extermínio, a contravenção e a corrupção dentro das instituições policiais do Rio de Janeiro.