Uma onda de ataques motivados por racismo, intolerância religiosa e preconceito de classe tem mobilizado denúncias e investigações policiais em diferentes estados após o encerramento do processo eleitoral.
Os episódios envolvem desde ofensas à memória da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 junto do motorista Anderson Gomes, até ataques virtuais violentos contra estudantes bolsistas em instituições de ensino.
Ofensas racistas contra Marielle na PUC-Rio
No Rio de Janeiro, a Ouvidoria da PUC-Rio instaurou um procedimento investigatório após denúncias de manifestações racistas atribuídas a um estudante de Direito em um grupo de mensagens. O aluno teria chamado Marielle Franco de "macaca" e questionado, em tom pejorativo, como a parlamentar pagou as mensalidades da universidade privada.
Marielle graduou-se em Ciências Sociais pela instituição em 2006, dez anos antes de se tornar a quinta parlamentar mais votada da capital fluminense. Em nota, a PUC-Rio classificou a ex-aluna como parte fundamental de sua história e reafirmou seu compromisso com uma educação antirracista.
A filha da vereadora, Luyara Franco, manifestou repúdio nas redes sociais, ressaltando que declarações criminosas não podem ser tratadas como brincadeira. O episódio ocorreu no mesmo período em que manifestantes em frente ao campus da Gávea também entoaram ataques contra a parlamentar, assassinada em 2018 ao lado do motorista Anderson Gomes.
Bolsista de 13 anos é alvo de humilhações em Belo Horizonte
Em Minas Gerais, uma adolescente de 13 anos, bolsista de um colégio particular de elite na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, passou a ser alvo de agressões sistemáticas por meio de áudios e mensagens no celular logo após o resultado das urnas. Três adolescentes teriam participado dos disparos virtuais.
As mensagens combinam ofensas de classe, violência de gênero e ataques de intolerância a religiões de matriz africana, com declarações como "minha casa vale 10 milhões, vale mais do que sua alma inteira" e xingamentos de cunho de intolerância religiosa, depreciando figuras do Candomblé.
Abalada psicologicamente, a jovem avalia deixar o colégio:
"Ela fica revivendo os momentos. Foram muito pesadas as falas... ela falou: 'mamãe, se quiser me tirar, pode me tirar'. Acho que nem ela mais tá aguentando", desabafou a mãe da vítima.
A Polícia Civil de Minas Gerais investiga o caso. Segundo juristas especializados em direito digital, os autores dos áudios podem ser responsabilizados por atos infracionais análogos a injúria racial, racismo, crimes contra a dignidade sexual e cyberbullying, sujeitos a medidas que vão de advertência à internação, além de responsabilização civil dos pais por falha no controle parental.